Da nebulosidade inicial, o Homem limpa os olhos, descobre o silêncio, caminha para o dia em direção à luz. O sagrado não se oculta, está em si, nele, no Homem, à procura da claridade que decorre por entre as mãos.
Do obscuro saber, o mito esmaga a exterioridade, leva o Homem à viagem interior, onde as cores revelam a presença do sagrado que se esmagam no encontro da sensibilidade, no ventre.
Da coisificação absurda, rodeante, o Homem projeta no universo, na tela, a desordem onírica, que espera, necessita, do olho, da água, da lágrima que dá ordem, sentido.
Na inquietude individual, o artista, o pintor, olha o mito, agarra a cabeça, mergulha nas cores, limpa os olhos, desvela a vida.
A Vida...

terça-feira, 21 de agosto de 2018


 Criamos pelas nossas próprias mãos a biblioteca na sala inferior rente ao jardim, onde se abrem duas portadas iluminadas pelo sol durante todo ano, exceto quando chove. Desde então, tornou-se o meu espaço preferido da casa. Ainda não está totalmente decorado. Dois cadeirões, duas almofadas, uma manta, um candeeiro, uma mesa e quatro cadeiras brancas, um tapete e uns cortinados, vão tornar o espaço ainda mais inteiro, intenso e acolhedor.
Sou a habitante da casa que mais usufrui deste espaço. Entre livros, pensamentos e ideias, estou como desejo, sozinha, tendo como companhia somente as minhas gatas e os meus solilóquios.
Não tenho muitos livros, ou melhor, tenho sempre a ideia de que tenho poucos. Provavelmente, não tenho os melhores livros, mas tenho alguns melhores do que outros. Apesar disso, ainda consigo descobrir algumas obras interessantes nas estantes, oferecidas pela minha tia e pela minha prima que, para minha satisfação, não foram poucas. Duas centenas de livros, acrescidos aos que já tinha, quase preenchem a totalidade das prateleiras.
Na mesa das festas, uma mesa de improviso, desenho e dou vida aos contos. Nela vagueiam, por vezes, personagens inacabadas, histórias contadas aos minutos e sentimentos que teimam em permanecer intactos na orla do coração.







segunda-feira, 16 de julho de 2018



Há músicas que entram facilmente na cabeça e nem pedem licença para entrar. Escancaram a porta das emoções e permanecem ali aninhadas em fios de prata a olhar o horizonte através dos versos. Talvez bastasse ser pássaro para sentir a chegada da primavera e testemunhar o verbo que está em risco de extinção.
São tantos os olhos que desfilam pela janela, sabendo que, a casa não têm teto. Também teimam em usar pestanas mesmo quando não chove. Há pessoas que vivem dentro da nossa cabeça de tanta preocupação, outras temos de as deixar ir, mesmo que nos doa o peito. Às vezes sinto pequenas asas a borbulhar na garganta. Quando as pressiono, elas ficam bravas, porque nascem deformadas. Torna-se difícil regressarem ao estado límpido em que se encontravam.  
Como é que formigas tão pequeninas podem carregar fardos tão grandes?
 São como algumas pessoas quando amam.
As malhas dos afetos são para os perseverantes com corações gigantes.
As maiores dores são sentidas no silêncio.
Então porque não se calam?

SML